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A paixão pela cultura e a música caipiras nasceu há muito tempo. Já na infância, quando no interior, me envolvia com as modas, no velho rádio do meu avô, e com as conversas, nos bares por onde passava com o meu pai. Há alguns anos, naturalmente, resolvi dedicar parte da minha produção autoral a este universo. Desde então, tenho encontrado pessoas maravilhosas e formado parcerias importantes. Muitas dessas pessoas estão, ou estarão, neste vídeo blog e em outras telas que pretendo ocupar. Mário de Almeida

PEREIRA DA VIOLA – O “SER ARTISTA”

Estou há um tempo refletindo sobre a forma como, nas últimas décadas, a figura do violeiro vem sendo representada nas mídias brasileiras.

Minhas questões têm sido bem variadas, mas venho afunilando as ideias. Quais são, por exemplo, os critérios que as mídias utilizam para se valerem de determinados aspectos da cultura popular? O que as faz dar mais ou menos foco a determinadas regiões do país? O que as faz projetar este ou aquele tipo de artista? De que forma se valem da música de viola? E, por fim, quais são os tipos de violeiros que tem mais ou menos projeção nas mídias atuais?

Este é um tema com o qual venho trabalhando e sobre o qual pretendo produzir e pesquisar mais. Pensando nisso, fomos eu, o Saulo Alves e a Carolina Scatolino conversar com Pereira da Viola, na II Feira Nacional da Reforma Agrária, em São Paulo, em maio de 2017.

Queria muito falar com o Pereira exatamente para entender de que forma ele se enxerga como violeiro e como artista. Acreditava que seu ponto de vista me ajudaria na busca por compreender as escolhas das mídias acerca do universo da viola, da chamada música de raíz ao sertanejo.

O violeiro e pesquisador Fabiuz DZ, do Trio Tamoyo, que produz as atrações musicais do evento, deu a maior força para que conseguíssemos entrevistar o Pereira no camarim. Foi bem rapidinho, pois o camarim já estava reservado para a cantora Kátia Teixeira. Mas valeu a pena. Ficou combinado uma conversa mais longa pra outra ocasião.

Logo volto a falar sobre esse tema aqui no blog.

 

O TIPLE COLOMBIANO NA VIOLADA

A Violada é um evento musical realizado mensalmente, ao longo do ano de 2017, na Casa Mora Mundo, no Bairro da Barra Funda, em São Paulo. Como o nome já sugere, a Violada tem como objetivo reunir diversos artistas que trabalham com a viola em uma perspectiva autoral. Este circuito é totalmente independente, o que, segundo o seu idealizador, Fábio Miranda, é a uma das propostas do projeto. Neste sentido é um espaço para violeiros que procuram tocar, apresentar seus projetos e trocar experiências, fora do ambiente do mercado tradicional.

Para levar o evento também a outros espaços, Fábio Miranda firmou parceria com outros artistas, como o violeiro Bruno Sanches, com quem tive a oportunidade de conversar na edição da Violada de abril.

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Violada na Casa Mora Mundo (29/04/17). Apresentação do violeiro Bruno Sanches e participantes.

Fui filmar para o documentário Viola Perpétua, para abordar o caráter independente e autoral do evento e a visão dos artistas participantes sobre a criação de espaços como este.

Como a dinâmica dos shows é bem livre, deixando espaço para imprevistos e improvisos, encontrei o que fui buscar e muito mais. Um dos momentos muito interessantes foi a apresentação do músico colombiano Aleksey Benavides Rodríguez, integrante do grupo de música caribenha e latino-americana Triptico. Aleksey estava ali na ocasião com um instrumento do seu país, o tiple. Diferente da viola caipira, que tem cinco grupos de cordas duplas, o tiple é um cordofone de quatro grupos de três cordas, sendo que no primeiro grupo, como demonstrou Aleksey, as três cordas são agudas, e em cada um dos outros três grupos as cordas de fora são agudas e a de dentro é grave, o que segundo o tocador faz com que o instrumento seja bem harmônico. O tiple é afinado em MI-SI-SOL-RÉ, faltando apenas as duas outras LÁ-MI, para completar a afinação igual à do violão, que também faz parte da formação típica que compõe o trio de cordas da música popular colombiana: bandola, tiple e violão.

Convidado por Fábio Miranda para interpretar alguma música do repertório tradicional de seu país, Aleksey cantou “Mi Cafetal”, de Rafael Godoy, que é um Bambuco, ritmo típico e muito popular na Colômbia. Eu achei que tem muitos elementos parecidos com o Chamamé e a Polca Paraguaia.

Compartilho aqui na tela este momento que filmei.

A Violada-Circuito autoral de violas brasileiras, em São Paulo, é realizada na Casa Mora Mundo, todo último sábado de cada mês, até o final do ano de 2017, mas o circuito já está se estendendo para outras cidades.

COMPANHIA NHOZINHO – uma folia de violas ou uma orquestra de Santos Reis.

Nas minhas pesquisas acerca das orquestras de viola, afim de encontrar personagens para meus trabalhos em documentário, venho observando muitos outros aspectos desses grupos que vão além da reunião para se tocar o instrumento. Não poderia ser diferente, já que o que me interessa nas orquestras é exatamente a grande variedade de pessoas que pode-se conhecer a partir delas. Histórias de vida das mais diversas se cruzam com as histórias das orquestras, sempre como ponto de união a música caipira, o modo de vida do campo e do interior e as manifestações culturais destes locais.

Uma coisa que me interessa muito é a forma de representação da cultura caipira na performance das orquestras. O uniforme, a indumentária, os rituais e tudo o que se possa fazer para se identificar como caipira ou sertanejo e que, diga-se de passagem, já foi e ainda é muito explorado por diversos segmentos da indústria cultural, são coisas que procuro nas orquestras.

Apesar da análise crítica que pode-se fazer sobre a produção desses grupos, mantenho meu foco nas histórias das pessoas envolvidas com as orquestras e no impacto positivo que a criação popular pode causar sobre as comunidades. De olho nisso, há alguns anos venho acompanhando a orquestra Violeiros do Rio Jaguary, de Bragança Paulista (saiba mais clicando aqui). No espetáculo “Antigamente era assim” o grupo traz sua visão a respeito do modo de vida do homem do campo e da cultura caipira, relacionando o que é encenado às músicas do segmento sertanejo que são tocadas ao longo da apresentação.

No caso da Violeiros do Rio Jaguary, há o detalhe interessante de que a regente Irmei Liz e os integrantes de sua família, todos atuantes das atividades do grupo, tenham migrado do interior de Minas Gerais para Bragança, trazendo com eles a sabedoria popular e a tradição das Folias de Reis, Congadas e outros folguedos do local de origem. Poucos anos depois da formação da orquestra, com um grupo consolidado, a família Liz encarou o desafio de continuar os trabalhos da Companhia de Reis Nhô Zinho, agora em Bragança, uma cidade onde há muitas décadas pouco se fala sobre Folias ou manifestações populares ligadas à cultura caipira (a mais expressiva tradição popular de Bragança talvez seja o Carnaval. Segundo o que dizem cidadãos bragantinos, as poucas manifestações remanescentes da cultura caipira, como o São Gonçalo e o Catira, se encontram apenas nas regiões rurais mais afastadas e ganham pouca atenção da população e das instituições da cidade).

A partir das vivências junto à companhia Nhô Zinho produzimos este vídeo que posto agora. Posso dizer que ao longo desta experiência, entre outros aspectos, foram observados “a formação de uma companhia de Santos Reis dentro de uma orquestra de viola” e “a criação de uma companhia de Santos Reis em uma cidade sem muitas manifestações populares ligadas à cultura caipira”. Mas o mais interessante foi identificar semelhanças entre orquestras de violas e companhias de Santos Reis, na medida em que estes e aqueles grupos igualmente mobilizam e unem a comunidade e servem como instrumento para a reafirmação de valores importantes, com os quais boa parte da população se identifica, mas que em determinadas localidades, muitas vezes e por motivos diversos, são pouco celebrados.

Por isso, viva as Folias de Reis e as orquestras de viola caipira!

Du Catira e Os Mensageiros dos Santos Reis

No dia 17 de dezembro de 2016, acompanhei um pouco do giro da companhia Os Mensageiros dos Santos Reis, de Guarulhos. A princípio, a ideia era conhecer essa companhia e seguir a bandeira em sua cidade mesmo. Tinha a intenção principal de filmar o mestre embaixador Oliveira, como complemento às filmagens que já tinha realizado dele para o meu documentário Viola Perpétua. Faltava algumas cenas do Oliveira em outros contextos e achei que nada melhor que filmá-lo em sua Folia de Reis. Isso aconteceu nesse dia e acho que consegui um bom resultado pela estrutura que tinha e por ter me planejado quase nada pra isso. A equipe era somente eu e a Carolina Scatolino, minha companheira.

Como Os Mensageiros dos Santos Reis é uma folia muito importante, que tem uma história muito interessante, sempre tive vontade de pesquisar mais e ir a campo com este grupo. Foi o que fiz. Não sabia, no entanto, que justo no dia que escolhi para ir, a companhia não ia andar por Guarulhos, mas sim por Itapevi, outra cidade da região metropolitana de São Paulo. Recebi a informação de que a bandeira iria se reunir na casa do Du Catira, um dos palhaços, e seguir para o giro.

Esse pequeno imprevisto foi a melhor coisa que aconteceu naquele sábado. Seguimos para Itapevi e  tivemos a oportunidade de realizar uma diária muito legal e de conhecer o Du, sua família, sua casa e sua relação profunda com a cultura caipira e a fé nos Três Reis Santos. Como já desconfiava, ele é uma pessoa muito especial, que certamente renderá ainda mais alguns dias de filmagem.

Um pouco da companhia, do Du Catira e do Oliveira, está no vídeo que compartilho agora.

Viva Santo Reis!

O trem de Torrinha na estação da viola

A antiga estação de Torrinha, no interior de São Paulo, hoje é habitada pela Orquestra Torrinhense de Viola Caipira. A população ouviu o chamado da locomotiva e trabalha no toque da viola, no sentido de repensar sua história e compartilhar a memória de todos sobre a cidade e suas singularidades.

Como disse o compositor Marinho, integrante da orquestra, “O trem tá chegando. Vamo lá, gente? Vamo embarcá?”. A frase foi dita durante uma entrevista realizada pelo nosso projeto “Viola Perpétua”. Na ocasião, Marinho dava seu depoimento, entre os demais integrantes, e o trem vinha chegando, estrondoso, prestes a interromper a entrevista.

Vamos obedecer o chamado. Vamos embarcar.

#violaperpétua #violanatela #nastrilhasdasorquestrasdeviola

Zé Rubens e Meneguetti / descrevendo um frame

Em março de 2015 estive em Torrinha. A cidade foi um dos destinos de uma viagem pelo interior de São Paulo, que fiz acompanhado do músico e pesquisador Saulo Alves e que teve como finalidade descobrir personagens para o documentário “Viola Perpétua”, que realizo desde 2011.

Na ocasião tivemos a felicidade de encontrar a dupla Zé Rubens e Meneguetti. Gravamos uma longa entrevista na antiga estação de trem, que hoje é um Ponto de Cultura e sede da Orquestra Torrinhense de Viola Caipira. Ali também são desenvolvidas diversas atividades ligadas à cultura caipira e à viola.

No meio da nossa conversa, Zé Rubens e Meneguetti cantaram, entre outras canções de autoria do próprio Braz, Sementinha”, de Dino Franco e Itapuã, a primeira música que cantaram juntos.

A “Sementinha” está no vídeo que posto agora, às vésperas de retornar à Torrinha e reencontrar o Braz. As outras músicas que gravamos possivelmente estarão no documentário. Mas aí é esperar para ver.

Realizando um projeto de documentário há tanto tempo, diversas vezes me deparei com a necessidade ou desafio de descrevê-lo (isso acontece ainda). Em uma dessas vezes, tive que descrever algumas características do projeto a partir de apenas um frame escolhido entre o material já gravado. Escolhi esse frame abaixo. Foi um exercício interessante, justamente pelo fato de que a condição de estar realizando um documentário (e muito nesse caso) tem para mim a ver com a necessidade de recontar coisas do passado, em um momento presente que é capturado, para que, no futuro, possam ser acessadas ou experienciadas.

Quero dizer, ao longo do processo, sempre estamos pensando no passado ou no futuro, mas na grande maioria das vezes, estamos mesmo falando do presente. E fazer com que o filme leve-nos a “entrar” nesses momentos em que as coisas são contadas e encontradas é um desafio enorme. Romper a barreira da imagem e do som para adentrar o momento vivido na gravação, nos sons, na atmosfera, enfim, no clima que envolve o tempo presente dos encontros que se estabelecem, é algo realmente instigante.

Descrever uma proposta a partir de um frame é algo fascinante, mas tenho a sensação que estou sempre na tentativa. Há algo também de incompleto nesse processo, na medida em que um frame não tem som. Se fizesse isso de novo, consideraria mais esse fato, mesmo tendo uma limitação de caracteres. Abaixo está algo que considero realmente uma boa tentativa.

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“A imagem acima é um frame retirado do registro em vídeo realizado em março de 2015, na cidade de Torrinha, no interior de São Paulo, durante parte do processo de pesquisa com a Orquestra Torrinhense de Viola Caipira, um dos núcleos abordados no projeto. Neste plano pode-se ver o momento em que Braz Meneguetti, cantor sertanejo e patrono da orquestra, é entrevistado pelo músico e pesquisador de cultura popular Saulo Alves e pelo diretor Mário de Almeida, que está fora do quadro, operando a câmera que gerou esta imagem.

A composição do quadro já sugere a proposta de abordagem do documentário, na medida em que revela, ainda que de maneira tímida, parte da equipe e da estrutura de filmagem. A imagem também demonstra a opção pelo uso de uma segunda câmera (canto esquerdo do quadro), o que possibilitou enquadrar, durante esta entrevista, outros elementos de grande importância simbólica que compõem o ambiente da antiga estação de trem de Torrinha, um lugar de memória que hoje é a sede da orquestra de violas.

No momento capturado pela imagem, o velho Braz Meneguetti, filho de imigrantes italianos, conta suas histórias de migração pelas cidades do estado de São Paulo, sua ida para a capital e seu retorno para o interior. Passagens de uma vida de quem sofreu as consequências diretas da modernização acelerada do país na metade do século XX e encontrou na música sertaneja um elo de ligação com sua identidade rural. Braz presenta-se com um violão e não com uma viola. Este detalhe, por si só, representa o paradoxo vivido por uma geração de cantadores sertanejos, que tiveram acesso apenas ao sistema de aprendizado do violão, muito mais difundido no Brasil. Fato que legitima a importância do recente cenário de retomada da viola caipira, bem como da cultura que a cerca, e que por consequência aponta a necessidade de abordagens atualizadas sobre este universo complexo de mudanças e permanências.”

Folia de Reis de Muqui

Em novembro de 2014  fui para Muqui, no interior do Espírito Santo, para participar do Fecin-festival de cinema do interior com o meu documentário “REIS-os violeiros de Palmital”. Na ocasião tive a grande alegria de filmar um grupo de foliões de Santos Reis de diversas folias da região. Eles se reuniram para fazer um apresentação após uma sessão do IPHAN, sobre projetos realizados pelo órgão junto a comunidade de Muqui.

FOLIA_MUQUIMuqui tem uma tradição muito forte de festas populares. Ali se realiza a Festa do Boi Pintadinho durante o Carnaval. A cidade também é sede do maior encontro de Folias de Reis do Brasil, uma festa que reúne Folias de Reis vindas de diversas partes do país. Em outubro de 2015, a 65º edição do Encontro Nacional de Folias de Reis de Muqui recebeu mais de sessenta grupos. Por isso, estar com o meu curta neste festival foi muito interessante.

No momento em que pesquisava para fazer um documentário sobre viola caipira em festa popular fiquei na dúvida se ia para Palmital, que realiza a maior Festa de Reis do Brasil, ou para Muqui. No final acabei indo para Palmital e acho que fiz a escolha certa, já que o que me interessava era exatamente a viola inserida em alguma festa popular na cultura caipira. Apesar de as Folias do interior do Espírito Santo (pelo menos o que pude ver) contarem com a presença da viola, me pareceu que o instrumento não tem um papel tão forte quanto na região que filmei. Ainda tenho que comprovar isso.

Aliás, muitos detalhes se diferem entre as Folias de Reis de uma região e outra, por exemplo, as vozes, os ritmos utilizados na cantoria e, antes de tudo, a denominação do grupo como “folia” em Muqui e como “companhia” em Palmital. Algumas pesquisas que tenho feito estão me levando a deduzir que a escolha por “companhia” é realmente feita para fugir de uma conotação pejorativa que “folia” carrega já na origem da palavra. Mas isso é uma outra história.

Na tela, o vídeo que fiz em Muqui.

De enxada e enxadão

Em 2014, fui convidado para dirigir um vídeo de exposição, em formato de documentário, sobre os projetos de infraestrutura do governo federal nos assentamentos da reforma agrária da região oeste do estado de São Paulo. Entre os meses de novembro e dezembro, passei dez dias pesquisando e filmando com a equipe em assentamentos de diversas cidades, o que, para mim, foi uma grande experiência. Além de ficar todo esse tempo na estrada, conhecendo de perto estes projetos, tive a oportunidade de conhecer histórias de vida muito, muito bonitas mesmo. Algumas dessas histórias não estão no vídeo que foi produzido, pois faziam parte das conversas que precisava fazer para me aproximar das pessoas que seriam filmadas.

O vídeo que fiz mostra o impacto que estes projetos tiveram sobre a vida dos assentados, para isso eu precisava conhecer um pouco de cada família de trabalhadores rurais para conseguir entrevistar e gravar o que era necessário. Tudo isso era feito na hora, logo foram dias repletos de muitas surpresas.

No assentamento da cidade de Mirandópolis, no dia 25 de novembro, me indicaram um casal, Ivete e Valdeci. Eles foram beneficiados com uma casa por meio do programa Minha Casa Minha Vida e estavam muito felizes com essa conquista. Já no final da tarde cheguei no lote deste casal. Valdeci e seu pai fixavam o mourão da porteira que estavam construindo. Eu desci da van e fui me apresentando. Logo, o pai de Valdeci veio falar comigo:

– Oi, meu nome é Napoleão Mantovani, sempre trabalhei na roça. Não largo isso por nada.

Eu precisava tratar de descobrir o que gravar ali, por isso dei pouca atenção pro velho. Mas ele insistiu:

– Vocês precisam filmar isso aqui. Meu filho vai ter uma casa e eu vou fazer de tudo pra ajudar ele a continuar trabalhando aqui na terra. Eu fiz isso a vida inteira e amo muito o que eu faço. Vocês são muito bem vindos aqui pra fazer esse trabalho pra gente.

Nesse momento eu olhei em volta. Num bom sentido, aquele lugar parecia mesmo o fim do mundo. Era uma baixada dentro do assentamento, ao horizonte o sol já caía e a mata ficava em silhueta. Eu ali, contemplando aquele momento de “tô no lugar certo e na hora certa”. E o velho mal sabia o quanto ele tinha despertado dentro de mim uma vontade imensa de viver aquela vida que ele leva, de estar na pele dele, com toda aquela felicidade por estar ajudando o filho e a nora a construírem uma vida juntos naquele pedaço de terra conquistado com tanto esforço.

Valdeci nos recebeu, mostrou a sua casa nova, que ainda estava sendo construída, e o barraquinho onde moravam até então. Eu fiz a entrevista, que ficou ótima, e gravei o que precisava. Depois chamei Napoleão e sua esposa Maria Aparecida para conversar. Ao me receber, sem eu perguntar nada, ele havia me falado de supetão e de forma muito bonita sobre o amor que ele sentia pelo trabalho na terra.  No momento da minha chegada estavam todos ali reunidos em família, ajudando a construir o portão, parecia muito um momento especial, no qual só faltava uma equipe de filmagem chegar para gravar seus depoimentos e imortalizar aquela alegria. E isso aconteceu! Por isso eu me coloquei a obrigação de entrevistá-lo.

A conversa que tive com Napoleão e sua esposa, a qual gravamos e não entrou no vídeo, agora eu disponibilizo aqui. Esse registro me parece especial, claro, por motivos pessoais e por outros não tão pessoais assim, pois é repleto de ideias que sei que, pro bem ou pro mal, também ocupam o pensamento de muita gente.

Na nossa conversa o velho Napoleão, que ama o que faz e que está absolutamente ligado às formas tradicionais de trabalho com a terra, fala o inesperado para muitos: “não tem nada melhor do que hoje”.

Hoje, dia 25 de maio, dia do trabalhador rural, compartilho este vídeo.

Os Povos da Cuesta

Estamos acompanhando um projeto muito interessante que o cineasta Luiz Carlos Lucena está realizando sobre a região de Botucatu-SP. Os “Os Povos de Cuesta” é uma série de documentários que se propõe a seguir a trilha das pesquisas realizadas pelo sociólogo Antonio Candido, que deram origem ao livro os “Os Parceiros do Rio Bonito”, obra que é referência mundial no que diz respeito aos modos de vida do homem rústico do interior paulista, ou seja, o caipira.

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O cineasta Luiz Carlos Lucena, diretor da série “Os Povos da Cuesta”.

Agora, Lucena se propõe a lançar luz sobre esta região, que é denominada “Cuesta de Botucatu”, abordando a cultura local e os modos de vida atuais da população que ali habita.

Abaixo a entrevista que o cineasta cedeu ao Viola na Tela e também o teaser do projeto, que já dá uma ideia do que vem por aí.:

 

Em que consiste o projeto e como surgiu a ideia?

O projeto surgiu a partir de uma pesquisa de locação para um longa metragem que vai ser realizado na região. Achei fascinante aquela natureza exuberante e os “povos” que moram por lá. Daí criei este projeto – O Povos da Cuesta, que tem quatro temas principais que formam os episódios da série: qual a história geomorfológica dessa região, que é fantástica, porque ali existiu um dos maiores desertos da terra e passaram os dinossauros; quem é o homem que mora nessa região, o nosso caipira, estudado no local por Antonio Candido entre 1947 e 1948; qual o imaginário desse caipira, suas histórias de assombração, mula sem cabeça, sacis e disco voadores; e a música que embala essas histórias, nossa música sertaneja de raíz.

De onde vem o seu interesse pelo universo rural? Qual é a importância de se colocar este universo na tela?    

Eu nasci em uma fazenda no interior de São Paulo, morei em um patrimônio de menos de 1000 pessoas até meus onze anos, portanto tenho uma memória de infância muito forte e presente na minha vida. Acho que colocar essa perspectiva, essa visão histórica de uma região fantástica e pouco conhecida e o universo do homem que habita esse local ganha importância significativa em uma tela de TV e nas telas do cinema, não apenas no Brasil, mas também no exterior.

Como foi o processo e pesquisa?

Eu viajei durante quase dois anos para Botucatu, Pardinho e Bofete, fiquei hospedado sempre em uma pousada no miolo da Cuesta de Botucatu, embaixo das Três Pedras, ouvi muitas histórias, conheci muita gente, então foi relativamente fácil partir para as gravações. Fiz um recorte como afirmo acima, mas essa região e o interior de São Paulo são tão ricos em causos, estórias, personagens que tive em determinado momento que parar, senão o filme não acabaria nunca. Há muitos assuntos ainda a serem pesquisados e produzidos com a cultura do interior.

Houve alguma surpresa durante o processo?

Algumas surpresas, como a de um morador local que afirma peremptoriamente que viu junto com a família um disco voador, em formato de play station2. Mas ele não apenas afirma, como diz que teve um contato telepático e que esses visitantes não são seres de outro planeta, mas gente da terra voltando do futuro para ajudar a gente aqui. Só do imaginário de um caipira você ouve alguma coisa como isso.

Vai ter viola na tela?

Sim, vai ter muita viola, cobri um festival dedicado ao Tião Carreiro, em Pardinho, em que me surpreendeu o número de participantes femininos, inclusive uma menina de 15 anos que vai ser um show. Agora estou viajando nesse feriado de Tiradentes para cobrir o Festival Carreirinho, em Bofete, as últimas gravações, onde também vai ter torneio de viola e muito show.

Como este projeto será veiculado?

O projeto já tem uma carta de intenção de uma rede emissora de TV em canal fechado interessada em veicular a série, estamos tentando uma parceria com a TVTem para exibir a série nessa emissora que cobre o interior paulista. E estamos finalizando também um longa metragem que tem estréia programada e em finalização com a Secretaria de Cultura de Botucatu, para uma grande premiere a ser realizada no dia 15 de agosto, quando se comemoram os 80 anos da primeira apresentação da dupla Tonico e Tinoco, que aparecem no filme. Essa premiere deve acontecer no cine Nellis, o primeiro cinema de  Botucatu, recuperado pela Prefeitura. Vai ser uma apresentação especial, inclusive estamos pensando em um show de viola para fechar o evento.

Mais detalhes e vídeos podem ser encontrados na página do projeto.

http://ospovosdacuesta.blogspot.com.br/search?updated-max=2014-11-22T01:42:00-08:00&max-results=7