O trem de Torrinha na estação da viola

A antiga estação de Torrinha, no interior de São Paulo, hoje é habitada pela Orquestra Torrinhense de Viola Caipira. A população ouviu o chamado da locomotiva e trabalha no toque da viola, no sentido de repensar sua história e compartilhar a memória de todos sobre a cidade e suas singularidades.

Como disse o compositor Marinho, integrante da orquestra, “O trem tá chegando. Vamo lá, gente? Vamo embarcá?”. A frase foi dita durante uma entrevista realizada pelo nosso projeto “Viola Perpétua”. Na ocasião, Marinho dava seu depoimento, entre os demais integrantes, e o trem vinha chegando, estrondoso, prestes a interromper a entrevista.

Vamos obedecer o chamado. Vamos embarcar.

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Zé Rubens e Meneguetti / descrevendo um frame

Em março de 2015 estive em Torrinha. A cidade foi um dos destinos de uma viagem pelo interior de São Paulo, que fiz acompanhado do músico e pesquisador Saulo Alves e que teve como finalidade descobrir personagens para o documentário “Viola Perpétua”, que realizo desde 2011.

Na ocasião tivemos a felicidade de encontrar a dupla Zé Rubens e Meneguetti. Gravamos uma longa entrevista na antiga estação de trem, que hoje é um Ponto de Cultura e sede da Orquestra Torrinhense de Viola Caipira. Ali também são desenvolvidas diversas atividades ligadas à cultura caipira e à viola.

No meio da nossa conversa, Zé Rubens e Meneguetti cantaram, entre outras canções de autoria do próprio Braz, Sementinha”, de Dino Franco e Itapuã, a primeira música que cantaram juntos.

A “Sementinha” está no vídeo que posto agora, às vésperas de retornar à Torrinha e reencontrar o Braz. As outras músicas que gravamos possivelmente estarão no documentário. Mas aí é esperar para ver.

Realizando um projeto de documentário há tanto tempo, diversas vezes me deparei com a necessidade ou desafio de descrevê-lo (isso acontece ainda). Em uma dessas vezes, tive que descrever algumas características do projeto a partir de apenas um frame escolhido entre o material já gravado. Escolhi esse frame abaixo. Foi um exercício interessante, justamente pelo fato de que a condição de estar realizando um documentário (e muito nesse caso) tem para mim a ver com a necessidade de recontar coisas do passado, em um momento presente que é capturado, para que, no futuro, possam ser acessadas ou experienciadas.

Quero dizer, ao longo do processo, sempre estamos pensando no passado ou no futuro, mas na grande maioria das vezes, estamos mesmo falando do presente. E fazer com que o filme leve-nos a “entrar” nesses momentos em que as coisas são contadas e encontradas é um desafio enorme. Romper a barreira da imagem e do som para adentrar o momento vivido na gravação, nos sons, na atmosfera, enfim, no clima que envolve o tempo presente dos encontros que se estabelecem, é algo realmente instigante.

Descrever uma proposta a partir de um frame é algo fascinante, mas tenho a sensação que estou sempre na tentativa. Há algo também de incompleto nesse processo, na medida em que um frame não tem som. Se fizesse isso de novo, consideraria mais esse fato, mesmo tendo uma limitação de caracteres. Abaixo está algo que considero realmente uma boa tentativa.

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“A imagem acima é um frame retirado do registro em vídeo realizado em março de 2015, na cidade de Torrinha, no interior de São Paulo, durante parte do processo de pesquisa com a Orquestra Torrinhense de Viola Caipira, um dos núcleos abordados no projeto. Neste plano pode-se ver o momento em que Braz Meneguetti, cantor sertanejo e patrono da orquestra, é entrevistado pelo músico e pesquisador de cultura popular Saulo Alves e pelo diretor Mário de Almeida, que está fora do quadro, operando a câmera que gerou esta imagem.

A composição do quadro já sugere a proposta de abordagem do documentário, na medida em que revela, ainda que de maneira tímida, parte da equipe e da estrutura de filmagem. A imagem também demonstra a opção pelo uso de uma segunda câmera (canto esquerdo do quadro), o que possibilitou enquadrar, durante esta entrevista, outros elementos de grande importância simbólica que compõem o ambiente da antiga estação de trem de Torrinha, um lugar de memória que hoje é a sede da orquestra de violas.

No momento capturado pela imagem, o velho Braz Meneguetti, filho de imigrantes italianos, conta suas histórias de migração pelas cidades do estado de São Paulo, sua ida para a capital e seu retorno para o interior. Passagens de uma vida de quem sofreu as consequências diretas da modernização acelerada do país na metade do século XX e encontrou na música sertaneja um elo de ligação com sua identidade rural. Braz presenta-se com um violão e não com uma viola. Este detalhe, por si só, representa o paradoxo vivido por uma geração de cantadores sertanejos, que tiveram acesso apenas ao sistema de aprendizado do violão, muito mais difundido no Brasil. Fato que legitima a importância do recente cenário de retomada da viola caipira, bem como da cultura que a cerca, e que por consequência aponta a necessidade de abordagens atualizadas sobre este universo complexo de mudanças e permanências.”