De enxada e enxadão

Em 2014, fui convidado para dirigir um vídeo de exposição, em formato de documentário, sobre os projetos de infraestrutura do governo federal nos assentamentos da reforma agrária da região oeste do estado de São Paulo. Entre os meses de novembro e dezembro, passei dez dias pesquisando e filmando com a equipe em assentamentos de diversas cidades, o que, para mim, foi uma grande experiência. Além de ficar todo esse tempo na estrada, conhecendo de perto estes projetos, tive a oportunidade de conhecer histórias de vida muito, muito bonitas mesmo. Algumas dessas histórias não estão no vídeo que foi produzido, pois faziam parte das conversas que precisava fazer para me aproximar das pessoas que seriam filmadas.

O vídeo que fiz mostra o impacto que estes projetos tiveram sobre a vida dos assentados, para isso eu precisava conhecer um pouco de cada família de trabalhadores rurais para conseguir entrevistar e gravar o que era necessário. Tudo isso era feito na hora, logo foram dias repletos de muitas surpresas.

No assentamento da cidade de Mirandópolis, no dia 25 de novembro, me indicaram um casal, Ivete e Valdeci. Eles foram beneficiados com uma casa por meio do programa Minha Casa Minha Vida e estavam muito felizes com essa conquista. Já no final da tarde cheguei no lote deste casal. Valdeci e seu pai fixavam o mourão da porteira que estavam construindo. Eu desci da van e fui me apresentando. Logo, o pai de Valdeci veio falar comigo:

– Oi, meu nome é Napoleão Mantovani, sempre trabalhei na roça. Não largo isso por nada.

Eu precisava tratar de descobrir o que gravar ali, por isso dei pouca atenção pro velho. Mas ele insistiu:

– Vocês precisam filmar isso aqui. Meu filho vai ter uma casa e eu vou fazer de tudo pra ajudar ele a continuar trabalhando aqui na terra. Eu fiz isso a vida inteira e amo muito o que eu faço. Vocês são muito bem vindos aqui pra fazer esse trabalho pra gente.

Nesse momento eu olhei em volta. Num bom sentido, aquele lugar parecia mesmo o fim do mundo. Era uma baixada dentro do assentamento, ao horizonte o sol já caía e a mata ficava em silhueta. Eu ali, contemplando aquele momento de “tô no lugar certo e na hora certa”. E o velho mal sabia o quanto ele tinha despertado dentro de mim uma vontade imensa de viver aquela vida que ele leva, de estar na pele dele, com toda aquela felicidade por estar ajudando o filho e a nora a construírem uma vida juntos naquele pedaço de terra conquistado com tanto esforço.

Valdeci nos recebeu, mostrou a sua casa nova, que ainda estava sendo construída, e o barraquinho onde moravam até então. Eu fiz a entrevista, que ficou ótima, e gravei o que precisava. Depois chamei Napoleão e sua esposa Maria Aparecida para conversar. Ao me receber, sem eu perguntar nada, ele havia me falado de supetão e de forma muito bonita sobre o amor que ele sentia pelo trabalho na terra.  No momento da minha chegada estavam todos ali reunidos em família, ajudando a construir o portão, parecia muito um momento especial, no qual só faltava uma equipe de filmagem chegar para gravar seus depoimentos e imortalizar aquela alegria. E isso aconteceu! Por isso eu me coloquei a obrigação de entrevistá-lo.

A conversa que tive com Napoleão e sua esposa, a qual gravamos e não entrou no vídeo, agora eu disponibilizo aqui. Esse registro me parece especial, claro, por motivos pessoais e por outros não tão pessoais assim, pois é repleto de ideias que sei que, pro bem ou pro mal, também ocupam o pensamento de muita gente.

Na nossa conversa o velho Napoleão, que ama o que faz e que está absolutamente ligado às formas tradicionais de trabalho com a terra, fala o inesperado para muitos: “não tem nada melhor do que hoje”.

Hoje, dia 25 de maio, dia do trabalhador rural, compartilho este vídeo.