O declamado do palhaço sem farda

O meu primeiro contato direto com a Folia de Reis se deu na cidade de Palmital, no interior de São Paulo. Foi lá que realizei o documentário “Reis – violeiros de Palmital” e fiz muitos amigos, em 2013. Palmital é uma cidade onde a cultura de raiz é muito forte, terra de violeiros, cantadores, foliões das festas de Reis e do Divino.

No último mês de Janeiro (2014) estive em Palmital com minha esposa, Carol, para gravar a 59ª Festa de Reis da cidade. Em um momento do evento um rapaz, dizendo-se palhaço de Reis, pediu-nos para gravá-lo falando alguns versos. A gente, no meio da correria da festa, achamos que seria melhor gravar os tais versos e continuar o trabalho. Eu disse: – Tô gravando. A câmera é toda sua.

O palhaço sem farda* começou a falar e a interagir com a câmera de uma maneira muito interessante. Ao ouvir os versos, identifiquei logo que se tratava da narração da história do nascimento de Jesus. Esta forma decorada de narrar esta passagem bíblica, herança da tradição oral, é uma prática frequente dentro das Folias de Reis, sendo que cada companhia, embaixador ou palhaço conta a história ao seu modo.

Depois, vendo o material, decidi compartilhá-lo na rede. Para isso tive que ir atrás de algumas informações. Fiquei tentando lembrar do nome desta forma de narração dentro da Folia. Tendo ouvido tantas vezes vários embaixadores e palhaços executando, fiquei inconformado por não me lembrar. Então mandei o áudio para o meu amigo Mário Reis, embaixador da Companhia Água das Anhumas de Palmital. Ele me falou: – Aaaaah! O declamado! Isso aí que ele tá falando é o declamado do Seu Adão Faceiro.

Pois é, o “declamado”. É assim que na região de Palmital chamam esse tipo de narração sobre o nascimento de Jesus. Esse que está na tela é o declamado do Seu Adão Faceiro, grande embaixador de Santo Reis de Palmital, e quem declama é o palhaço de Santo Reis que leva o apelido de Boquinha.

* traje típico dos palhaços de Santo Reis, feito com panos de chita.

Obs I: Apesar de o vídeo conter apenas um trecho do declamado, os versos falados na íntegra têm a duração aproximada de 20 minutos.

Obs II: E viva Santo Reis!