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COMPANHIA NHOZINHO – uma folia de violas ou uma orquestra de Santos Reis.

Nas minhas pesquisas acerca das orquestras de viola, afim de encontrar personagens para meus trabalhos em documentário, venho observando muitos outros aspectos desses grupos que vão além da reunião para se tocar o instrumento. Não poderia ser diferente, já que o que me interessa nas orquestras é exatamente a grande variedade de pessoas que pode-se conhecer a partir delas. Histórias de vida das mais diversas se cruzam com as histórias das orquestras, sempre como ponto de união a música caipira, o modo de vida do campo e do interior e as manifestações culturais destes locais.

Uma coisa que me interessa muito é a forma de representação da cultura caipira na performance das orquestras. O uniforme, a indumentária, os rituais e tudo o que se possa fazer para se identificar como caipira ou sertanejo e que, diga-se de passagem, já foi e ainda é muito explorado por diversos segmentos da indústria cultural, são coisas que procuro nas orquestras.

Apesar da análise crítica que pode-se fazer sobre a produção desses grupos, mantenho meu foco nas histórias das pessoas envolvidas com as orquestras e no impacto positivo que a criação popular pode causar sobre as comunidades. De olho nisso, há alguns anos venho acompanhando a orquestra Violeiros do Rio Jaguary, de Bragança Paulista (saiba mais clicando aqui). No espetáculo “Antigamente era assim” o grupo traz sua visão a respeito do modo de vida do homem do campo e da cultura caipira, relacionando o que é encenado às músicas do segmento sertanejo que são tocadas ao longo da apresentação.

No caso da Violeiros do Rio Jaguary, há o detalhe interessante de que a regente Irmei Liz e os integrantes de sua família, todos atuantes das atividades do grupo, tenham migrado do interior de Minas Gerais para Bragança, trazendo com eles a sabedoria popular e a tradição das Folias de Reis, Congadas e outros folguedos do local de origem. Poucos anos depois da formação da orquestra, com um grupo consolidado, a família Liz encarou o desafio de continuar os trabalhos da Companhia de Reis Nhô Zinho, agora em Bragança, uma cidade onde há muitas décadas pouco se fala sobre Folias ou manifestações populares ligadas à cultura caipira (a mais expressiva tradição popular de Bragança talvez seja o Carnaval. Segundo o que dizem cidadãos bragantinos, as poucas manifestações remanescentes da cultura caipira, como o São Gonçalo e o Catira, se encontram apenas nas regiões rurais mais afastadas e ganham pouca atenção da população e das instituições da cidade).

A partir das vivências junto à companhia Nhô Zinho produzimos este vídeo que posto agora. Posso dizer que ao longo desta experiência, entre outros aspectos, foram observados “a formação de uma companhia de Santos Reis dentro de uma orquestra de viola” e “a criação de uma companhia de Santos Reis em uma cidade sem muitas manifestações populares ligadas à cultura caipira”. Mas o mais interessante foi identificar semelhanças entre orquestras de violas e companhias de Santos Reis, na medida em que estes e aqueles grupos igualmente mobilizam e unem a comunidade e servem como instrumento para a reafirmação de valores importantes, com os quais boa parte da população se identifica, mas que em determinadas localidades, muitas vezes e por motivos diversos, são pouco celebrados.

Por isso, viva as Folias de Reis e as orquestras de viola caipira!

Du Catira e Os Mensageiros dos Santos Reis

No dia 17 de dezembro de 2016, acompanhei um pouco do giro da companhia Os Mensageiros dos Santos Reis, de Guarulhos. A princípio, a ideia era conhecer essa companhia e seguir a bandeira em sua cidade mesmo. Tinha a intenção principal de filmar o mestre embaixador Oliveira, como complemento às filmagens que já tinha realizado dele para o meu documentário Viola Perpétua. Faltava algumas cenas do Oliveira em outros contextos e achei que nada melhor que filmá-lo em sua Folia de Reis. Isso aconteceu nesse dia e acho que consegui um bom resultado pela estrutura que tinha e por ter me planejado quase nada pra isso. A equipe era somente eu e a Carolina Scatolino, minha companheira.

Como Os Mensageiros dos Santos Reis é uma folia muito importante, que tem uma história muito interessante, sempre tive vontade de pesquisar mais e ir a campo com este grupo. Foi o que fiz. Não sabia, no entanto, que justo no dia que escolhi para ir, a companhia não ia andar por Guarulhos, mas sim por Itapevi, outra cidade da região metropolitana de São Paulo. Recebi a informação de que a bandeira iria se reunir na casa do Du Catira, um dos palhaços, e seguir para o giro.

Esse pequeno imprevisto foi a melhor coisa que aconteceu naquele sábado. Seguimos para Itapevi e  tivemos a oportunidade de realizar uma diária muito legal e de conhecer o Du, sua família, sua casa e sua relação profunda com a cultura caipira e a fé nos Três Reis Santos. Como já desconfiava, ele é uma pessoa muito especial, que certamente renderá ainda mais alguns dias de filmagem.

Um pouco da companhia, do Du Catira e do Oliveira, está no vídeo que compartilho agora.

Viva Santo Reis!