Desaboio

Conheci o músico e pesquisador Saulo Alves por conta de sua tese de doutorado sobre o ensino da viola caipira, assunto que venho pesquisando para realizar um novo documentário. Fiz o primeiro contato pela internet e assim fomos nos conhecendo. Mineiro de Ituiutaba, em 2013 Saulo veio morar mais uma vez em São Paulo para dar continuidade aos seus estudos. Na primeira oportunidade, nos encontramos para bater um papo pessoalmente. Eu aproveitei para lhe mostrar o meu curta que estava saindo do forno. Na ocasião, ele me falou de um projeto musical que estava realizando, o “Desaboio”. Faltava pouco pra terminar. Fiquei curioso e esperei para saber mais.

Na semana seguinte o Saulo me ligou de noite. Estava saindo da sessão de mixagem e tinha um CD com uma pré-mix do Desaboio na mão. Em questão de horas ele chegou na minha casa com esse CD e um vinho. Ele, eu e minha esposa Carol ouvimos o CD tomando o vinho. Aí o Saulo foi explicando quem era quem naquele projeto e eu fui conhecendo ali um pessoal que fui achando bacana demais.

A partir dessa noite eu passei a ouvir bastante o Desaboio. Agora, em agosto de 2014, o projeto está pronto: um CD que tem um encarte que é um livro. É difícil de saber onde começa uma coisa e termina a outra. Eu percebo o processo de criação desse projeto se dando exatamente dessa forma. As letras do Paulo Nunes musicadas pelo Saulo viraram todas uma coisa só, extrapolando os limites de cada canção, num painel onde muitos outros artistas vieram somar, fazendo cada um dos elementos se configurar como parte significativa do todo.

Acima de tudo, a grande beleza que vejo nesse projeto é a maneira como focaliza a condição atual do Cerrado, falando das coisas como são e não de “como foram há tempos atrás”. Acredito muito nesse tipo de pensamento, nas coisas que se transformam e não se congelam no tempo, o fogo que queima o pau da árvore pra dar lugar a outra coisa. Essa coisa existe e o Desaboio em si é isso.

O projeto pode ser visto no site desaboio.com, onde pode-se adquirir o CD com o livro, além de acessar o conteúdo online.

Na tela: Paulo Nunes, Saulo Alves e Victor Mendes.

Fábio Miranda

Fábio Miranda é um jovem violeiro de Brasília. O cara é muito talentoso e seu toque na viola tem bastante intenção. Isso pode ser conferido nas canções do seu disco “Caravana Solidão” (2012). Muitas músicas estão disponíveis na internet, no site do violeiro e também em seu canal do YouTube. Nestes espaços também pode-se ter um contato com outras produções do Fábio.

Na vídeo, um trecho do que foi feito em maio de 2014, no Bairro da Lapa, em São Paulo. Num fim de tarde de bastante improviso, uma palhinha do seu novo disco “Chamamento”, que está sendo finalizado.

Viola na tela do CineDocumenta (Ipatinga MG)

O documentário “REIS-os violeiros de Palmital” foi selecionado para a CineDocumenta, 10ª mostra de cinema documentários de Ipatinga MG, que neste ano tem como tema “cinema e literatura”. Serão exibidos 20 documentário de várias regiões do Brasil, de 15 à 18 de maio. A sessão do documentário “REIS-os violeiros de Palmital” será no dia 18 de maio, às 19h, no Parque Ipanema.

http://www.cinedocumenta.com.br/2014/programacao.php

Captura de Tela 2014-05-08 às 17.59.41

Documentário “REIS-os violeiros de Palmital” no Festival Days of Ethnographic Film

O meu documentário “Reis-os violeiros de Palmital” vai passar no “Days of Ethnographic Film”, festival de documentários etnográficos que ocorre em Liubliana, na Eslovênia, na semana que vem. O Festival é promovido pelo Museu Etnográfico Esloveno. O documentário vai passar no dia 14 de Março .
É muita honra representar a nossa cultura em um Festival tão importante como esse, entre tantos documentários interessantíssimos.
O projeto está cumprindo um papel bacana. Que bom.
Captura de Tela 2014-03-04 às 22.09.57Link para o catálogo completo do festival AQUI:

VIOLA DE LUTA – ANVB e Movimento de Viola

Em dezembro de 2013, a Associação Nacional de Violeiros do Brasil, em parceria com o MST e outros orgãos, realizou o Seminário Preparatório para o 6° Encontro Nacional dos Violeiros e Violeiras. Na ocasião diversos violeiros e músicos ligados a cultura de raiz estiveram reunidos em São Paulo para discutir as diretrizes para a realização do evento. Além disso, o seminário proporcionou debates acerca da importância do fortalecimento da cultura da viola caipira e da união entre os violeiros de todo o Brasil, na luta e resistência a favor da música caipira .

Foi neste ambiente, que pela primeira vez pude ouvir falar, de uma forma mais clara, sobre o Movimento de Viola. Indo além da questão musical e extrapolando as questões ligadas diretamente ao instrumento, o Movimento de Viola abrange vários grupos, práticas e manifestações que cercam o universo da cultura caipira e sertaneja (a cultura oral; as tradições dos mestres; as Folias; os trabalhadores rurais; os artesãos; etc), levando em conta o espírito de resistência que esta cultura tem em relação às tecnologias e aos meios de produção impostas pelo capitalismo.

Confirmei a minha impressão de que este seja um movimento espontâneo, longe de ser institucionalizado. Apesar de haverem, ao meu ver, várias frentes da música e da cultura sertanejas que comungam de seus valores. No caso deste grupo específico, por mim pesquisado na ocasião, trata-se de indivíduos ligados aos movimentos sociais ou que se identificam com estes. Foi exatamente nesta perspectiva que nasceu a Associação Nacional dos Violeiros do Brasil.

Tive o prazer de entrevistar os violeiros Bilora e Joaci Ornelas, além de gravar algumas apresentações.

Está na tela.

O declamado do palhaço sem farda

O meu primeiro contato direto com a Folia de Reis se deu na cidade de Palmital, no interior de São Paulo. Foi lá que realizei o documentário “Reis – violeiros de Palmital” e fiz muitos amigos, em 2013. Palmital é uma cidade onde a cultura de raiz é muito forte, terra de violeiros, cantadores, foliões das festas de Reis e do Divino.

No último mês de Janeiro (2014) estive em Palmital com minha esposa, Carol, para gravar a 59ª Festa de Reis da cidade. Em um momento do evento um rapaz, dizendo-se palhaço de Reis, pediu-nos para gravá-lo falando alguns versos. A gente, no meio da correria da festa, achamos que seria melhor gravar os tais versos e continuar o trabalho. Eu disse: – Tô gravando. A câmera é toda sua.

O palhaço sem farda* começou a falar e a interagir com a câmera de uma maneira muito interessante. Ao ouvir os versos, identifiquei logo que se tratava da narração da história do nascimento de Jesus. Esta forma decorada de narrar esta passagem bíblica, herança da tradição oral, é uma prática frequente dentro das Folias de Reis, sendo que cada companhia, embaixador ou palhaço conta a história ao seu modo.

Depois, vendo o material, decidi compartilhá-lo na rede. Para isso tive que ir atrás de algumas informações. Fiquei tentando lembrar do nome desta forma de narração dentro da Folia. Tendo ouvido tantas vezes vários embaixadores e palhaços executando, fiquei inconformado por não me lembrar. Então mandei o áudio para o meu amigo Mário Reis, embaixador da Companhia Água das Anhumas de Palmital. Ele me falou: – Aaaaah! O declamado! Isso aí que ele tá falando é o declamado do Seu Adão Faceiro.

Pois é, o “declamado”. É assim que na região de Palmital chamam esse tipo de narração sobre o nascimento de Jesus. Esse que está na tela é o declamado do Seu Adão Faceiro, grande embaixador de Santo Reis de Palmital, e quem declama é o palhaço de Santo Reis que leva o apelido de Boquinha.

* traje típico dos palhaços de Santo Reis, feito com panos de chita.

Obs I: Apesar de o vídeo conter apenas um trecho do declamado, os versos falados na íntegra têm a duração aproximada de 20 minutos.

Obs II: E viva Santo Reis!

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